janeiro 12, 2017

SAUDAÇÕES AO ROMANCE DE WIL PRADO


Wil Prado é uma de minhas amizades mais firmes desde que cheguei a Brasília. Desde nossos passos iniciais na literatura, foram vívidos debates e percursos juntos pela cidade. Por muros vários que atravessam a nossa vida, Wil Prado demorou a publicar seu primeiro livro. E é com alegria que vejo que figuras importantes da literatura brasileira, de cara, se manifestarem favoravelmente ao seu romance SOB AS SOMBRAS da Agoniaeditado pela Chiado, de Portugal, do qual foi leitor desde as primeiras versões até o momento de escrever a apresentação. Acredito que são poucos que merecem uma manifestação eufórica de Raduan Nassar.  E, ainda, de João Almino, que acaba de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.

(...) SOB AS SOMBRAS DA AGONIA me tocou sobretudo pela linguagem, por palavras novas, metáforas bem sacadas, e os empurrões articulando o entrecho. Além disso, o romance arrola no geral gente do povo, ao lado de uns poucos salafras da elite, com caracterizações convincentes, inclusive o perfil do próprio narrador, tolerante e compreensivo, mesmo se crítico não só do que está aí, mas consigo mesmo em suas idas e vindas. Este apanhado curto me proporcionou fruição pra valer da leitura. 

   Falar de mínimos senões, seria absolutamente impróprio diante da força do romance, marcado dramaticamente por virulentos apelos e frustrações da carne. 

                                            RADUAN NASSAR 



“Sob as sombras da agonia”, tão bem impresso e apresentado.  Já se vê pela orelha que material para romance não lhe faltaria, desde a vivência em nosso Nordeste às leituras.  O final vai num crescendo com o voyeurismo do personagem narrador (...), assim como um bem concebido resumo de suas memórias de Justina, Lavínia e tantos outros personagens ou situações nas últimas duas páginas. 

  João Almino



"Existem os casos, raros, em que a claridade do texto, o estilo, e a sedução da linguagem nos arrastam. Foi isto o que aconteceu com a leitura de SOB AS SOMBRAS DA AGONIA  - romance denso e suave, seco, existencialista e cortante. SOB AS SOMBRAS  já nasceu clássico. E assim deve ser visto pela crítica."

                                                                         DIMAS MACEDO 



Tão logo iniciamos a leitura de SOB AS SOMBRAS DA AGONIA, deparamo-nos com um texto no qual aflora a crítica social. O autor Wil Prado — ao falar de si, sua formação e preferências literárias — demonstra a influência de autores como Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Amado e José Lins do Rego. Com uma trama bem construída, personagens verossímeis e uma narrativa realista, o autor insere-se com muita personalidade no universo literário do romance, fixando a sua obra no contexto da prosa no Brasil.



HUGO PONTES, Jornal da Cidade.



“SOB AS SOMBRAS DA AGONIA”, de Wil Prado, é testemunha do que está acontecendo com a humanidade, muitas vezes sem que se perceba. Trata-se de um romance de grande teor crítico –social, uma espécie de catarse sem papas na língua, com imagens e cores cortantes que questionam a realidade e revelam, em toda plenitude, a condição humana, mostrando a degradação do homem, [...] fazendo sentir que viver é uma coisa quase sobrenatural, associados os personagens, psicologicamente abalados e/ou transformados, a sentimentos proibidos, o que torna o texto instigante, ao ressaltar o contraste entre os poderosos e os mais carentes, salientando os aspectos mais complexos, tanto visuais quanto sensoriais da existencialidade, comandados pelo ritmo de uma linguagem de grande vitalidade, para decifrar o labirinto de desilusões no seio da sociedade egoísta e cínica que só pensa em si.

     Escrito num tom quase confessional, é uma espécie de manifesto de resistência ao cotidiano perverso, resgatando imagens como se fora um voyeur das vicissitudes que a vida nos impõe, todos os dias, sem esquecer, é claro, das pequenas satisfações que ela, a vida, nos proporciona, tendo como combustível o lírico-amoroso de cenas erótico-sensuais de tirar os puritanos do sério.

     Enfim, o livro dá um show descritivo, dentro da narrativa, visando a aplacar as dores do dia a dia. Por último, achamos ainda que é necessário, também, mencionar que o autor circula por todos os gêneros literários, engrandecendo todos eles com inusitada proficiência e enaltecedora perspicácia!

Silvério da Costa

dezembro 18, 2016

Mas ser amado é poder ser útil ao amor.
Por exemplo, pregar pregos onde o amor não quer se fixar,
coçar onde os piolhos estragaram o amor.
Por exemplo, ser útil com o calor onde o amor se esfria,
ser belo onde o amor vai com o fluxo das rugas.

Mas ser amado sem comer o gosto de pedra.
O gosto de amora e jambo também não é o gosto
e a utilidade que o fruto leva para o beijo.
Ser útil ao amor, por exemplo, com a carnal das mãos
sobre o trabalho de aliviar a velhice do amado.

Mas ser amado não é só à espera do verniz
da bengala. Tem de esvaziar antes os ossos,
soltar dos portos tantas embarcações de outros
que não ficarão para assistir o que o beijo
gasta de jambo e carne, antes da partida.

O que me enriquece

Quando terminamos um ciclo, seja de tempo ou de percurso entre um ponto e outro da territorialidade de existirmos, cumpre-nos avaliar o que fortalece ou empobrece a nossa existência. O que me empobrece está na minha impossibilidade de contribuir para que em todas as casas exista a ereção do espaço para que as pessoas construam a consciência do que são, através das marcas da cultura. Nunca me esqueço de uma casa de um bairro que esteve um dia em meu percurso. Atravessei-a, pois o único percurso era passar por dentro daquela casa. A família tinha apenas um banco em que sentar, e possivelmente só lhes resgatassem ficar silenciosos ao lado um do outro. Voltei neste ano a encontrar pessoas assim sentadas, sem poder contar com nenhuma compressão, de outros, de si, sem conseguir pensar por si o que está a acontecendo com elas. Mas sabem que estão amarradas a uma impossibilidade amarga. O maior desastre é não conseguir compreender a realidade que foi construída em volta de si. Deprimo-me quando colido com a realidade dessas pessoas. E tenho de colidir já que estão inscritas no meu percurso.
O que me enriquece está na amizade dos homens e dos livros. Neste ano, foi importante para a minha alegria que o amigo Wil Prado, enfim, publicasse o seu primeiro romance, e que tenha o autor me cedido a honra de apresentá-lo. Romance esse que mereceu um e-mail generoso de Raduan Nassar. Pude ainda ler as duas grandes sagas de Homero. Sai assustadoramente enriquecido. Não serei mais o mesmo e muito menos a minha poesia. Dos muitos livros de poesia lançados no Brasil, e nem tive acesso a todos, foi maravilhoso conhecer a poesia de José Inácio Vieira de Melo, de contatá-lo corpo a corpo. E, enfim, o susto de encontrar a perfeição no livro Zut, de Djami Sezostre, pseudônimo de Wlilmar Silva. O poeta alcançou se descolar da impossibilidade da linguagem. Tudo é possível, nele, com naturalidade. Ainda, entre tantos encontros que me tornaram um pouco mais completo, está conhecer, não in loco, mas em livro, a escultura L'impossible, de Maria Martins. Não tenho nenho intenção de ir aos EUA, mas essa peça está em Nova York, mas possivelmente não irei lá. Vale a fotografia da peça. Aqui vemos a antropofagia de sermos homens, esse  destino de nos sugarmos com a nossa agressividade, com a nossa incompletude, com a nossa fome do outro. Ela estará gravada sempre em mim, pontiagudamente.
Assim, vou terminando meu ano, com meus enganos, e com meus encontros com a perfeição.
Já preparo o próximo ano. Inicialmente, lerei toda a poesia de Herberto Helder. Depois, penso em reler A Montanha Mágica, e Thomas Mann. Mas qualquer outra imagem que estiver em meu percurso, seja um homem apequenado em sua casa, o jambo, a formiga pisada por uma garotinha, a chuva que voltará a se preparar numa próxima nuvem, será isso que me enriquece.
Só nos enrique aquilo que construímos com consciência. Se apossamos do que poderia enriquecer a capacidade do outro de compreender a realidade, de dela participar, ficamos, sim, prisioneiros de nossa consciência.
Não sejamos prisioneiros de nossa consciência, em 2017. Para isso, basta desempenharmos fielmente a obra, a missão que nos coube dentro da sociedade.

novembro 02, 2016

Filme de Creadle sobre Miles Davis

Assisti só agora em 02.11.2016 a cinebiografia "Miles Ahead", que ainda não estreiou no Brasil. Espero que o filme não denigra a trajetória de Miles Davis, pois Creadle preferiu fazer um filme policialesco e não jazzístico. O que aconteceu com Miles Davis, tenho certeza, não teve a a corrida policialesca suspensiva que o filme procura caracterizar. Eu gostaria de ver o Miles Davis criativo, gênio, e não a construção de um homem derrotado. Acho que a família e o cineasta estavam focando apenas a grana que poderiam ganhar. Poderiam honrar a trajetória de um gênio. Quando li sua autobiografia não enxerguei este homem estúpido e derrotado. Um homem assim não teria deixado o legado que está aí disponível a todos. Não teria contribuído para mudança dos rumos da música e para a ascensão de tantos nomes, muitos deles ainda na ativa. Em momento algum o filme não mostra se é Wayne Shorter ou Herbie Hancock que entra na história. Se Creadle deseja dar uma improvisação ao filme ela não corresponde ao Miles Davis construtivo e à música verberante de um astro de iluminação eterna.

outubro 28, 2016

O gênio dos mestres

Estou fazendo postagens demais, mas sempre está ocorrendo alguma coisa. É a chuva, é o pássaro, é o besouro atravessando a janela em busca de luz. Mas fui ao cinema assistir "O gênio dos mestres", cinebiografia de Max Perkins, um dos maiores editores norte-americanos, responsável pela edição de obras de Hemingway e Fitzgerald. O filme trata da relação dele com Thomas  Wolfe, romancista ainda não traduzido por aqui, já que traduziram apenas contos dele. Tenho dois romances em espanhol. Vou ver se leio um nas férias de novembro. (Por falar nisso, terminei "A cidade de Deus", de Santo Agostinho. Deixou a minha cabeça em barafunda.) Em resumo, o filme merece ser visto. Drama comovente, com trilha jazzística limpa e justa, não muito da época, mas belíssima, ótimas referências à poesia e ao processo de organização de um romance. Agrada muito a quem é ou deseja ser escritor, e comove o expectador amante da arte.

agosto 09, 2016

Gracias ao amigo Antônio Miranda pela publicação na internet da plaqueta de poemas meus editado pela Casa do Poeta Peruano, para o evento realizado em Chota, naquele País. Resonancias

junho 01, 2016

Júlio César Polidoro

COLETA 

A Salomão Sousa

Assina a ruga
essa rude instalação:
no corpo alquebrado
o rosto precário
e a rua
repleta de buracos.


E avenidas cortam,
novas, ao rincão
da pele, antes plana,
uma sucessão de quebra-molas.


Mil atalhos surgem
desde os cílios
e ladeiras íngremes
entornam
um rio de lágrimas
dos olhos.


Eis o tempo
e urge no meu rosto
a vital parcela do imposto
que esse mesmo tempo
agora cobra.

maio 27, 2016

Notas de leitura - Eça de Queiroz


Para Jacinto Guerra


Não sei aquilatar quanto de cinzas ainda ocupa minha visão para ultrapassar as multifaces do romance A cidade e as serras, de Eça de Queiroz. Li na juventude O crime do padre Amaro e, há uns três anos, Os Maias. Não sei quando fiz a primeira leitura de O Mandarim, que foi refeita agora com outro olhar, mas que sempre me abriu fundas estradas na imaginação, pois é impossível sairmos ilesos do terreno das fábulas.
                Acredito que, em A cidade e as serras (não sei por que ao tratar dessa dicotomia põe a cidade no singular e as serras no plural, pois não é só Paris, no final do século XIX, que expressa os efeitos da industrialização), Eça de Queiroz faz um ajuste de contas com o sentimento de desconforto do seu tempo e também com as angústias pessoais. Constrói fabulação que irá contrapor a Schopenhauer e também a construção da ambiência da amizade e da família para enfrentar a história pessoal. Eça foi criado pelo avô como se fosse um bastardo depois de renegado pelos pais que o conceberam antes do casamento.
                O personagem principal de A cidade e as serras, Jacinto, é construído na voz de um segundo personagem, o narrador José Fernandes. Ambos herdeiros de famílias rurais portuguesas, que vivem em Paris na primeira parte do romance, imersos na futilidade do inútil conforto da vida moderna, que, pela nascente industrialização, sabe apenas construir caixas e caixas de objetos que podem ficar abandonadas no meio do caminho sem apresentar nenhum prejuízo ao percurso dos seus donos. Enfim, esses personagens cansam da metrópole e precisam retornar às origens para retomar a originalidade espontânea da natureza, mesmo quando ela ruge tempestades sobre os inquilinos da terra.
                Desde a juventude, nunca tive dificuldade com o estilo ímpar de Eça, num português exemplar que chega a ser chato, parecendo arcaico. Se vivi num mundo arcaico, quase colônia perdida de portugueses antigos no perdido interior de Goiás, a linguagem arcaica me é familiar. Em A cidade e as serras, estranhou-me a o diálogo monossilábico, mas também isso, no estilo de Eça, também me é familiar, pois na família goiana arcaica o diálogo não é expansivo, se as expressões da fala são notas pontuadas, que denotam apenas a confirmação presencial do fato. Pois então. Veja este diálogo do romance:
Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
- Que beleza!
E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
- Que beleza!

                Em três outros momentos, Eça me emocionou ao eriçamento da pele.
                No instante em que o narrador vai denunciar a exploração do homem do campo, aparece o movimento socialista nascente na época, que certamente afetou o romancista. A “Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se ao Capital der ao Trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada”. Até os grandes escritores cometem os seus cacófatos (por/cada), mas não erram na notação do real. E, adiante, o burguês rural, indiferente ao que ocorre na sociedade, irá descobrir e atuar para se redimir perante a classe trabalhadora.
                Para o narrador que foge do romantismo e do realismo, procurando ingressar numa radicalidade moderna, Eça tem de fazer sua entrada na natureza enfrentando esse rito de passagem. Num mesmo parágrafo se mantém romântico (Por toda parte a água sussurrante, a água fecundante...), ou se mantém simbolista nas repetições (Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas); mas realista social, por que não, utilitarista capaz de presenciar o lucro na fartura (notou a robustez e a fartura das oliveiras).
                Nesse que é quase uma obra póstuma, pois Eça faleceu quando revisava as suas provas, há uma antevisão da época e também premonição do que viria a ser o confronto entre conhecimento e utilitarismo. Jacinto se envolve em projeto social junto aos seus trabalhadores e, após os personagens estarem instalados e organizados no meio rural, onde reina a natureza, a organicidade, o narrador retorna a Paris. Para formular a premonição de confronto do homem que virá, ele vai parar por acaso num ambiente universitário – num episódio quase extemporâneo dentro da narrativa só para a fabulação do futuro –, só para que dentro de uma aula um estudante, “abortozinho de rapaz”, berre contra o narrador, isto é, contra o ensino de humanidades: “Sale Maure!”. Na antepenúltima página do romance, este grito de “mouro imundo” expressa a repugnância da modernidade que se aflora no despertar do Século XX contra as doutrinas consideradas inúteis, que não geram lucro, bem como antecipam a movimentação social de intolerância, na Europa, contra algumas raças. Se Eça estivesse por aqui iria ver como esse berro ecoa ainda mais alto na pós-modernidade.
                Assim como em O conformista, de Alberto Moravia, o narrador acaba não de envolvendo nalguma resistência, pois, em vez de promover enfrentamento deste caos que se descortina no cenário europeu, que iria culminar na instalação de governos totalitários e na deflagração de guerras mundiais, prefere fazer um retorno de se entocar n”as serras” e, certamente, assistir à distância o movimento dos canhões. E quem não enfrenta acaba contribuindo para a evolução de movimentos destroçadores da ordem da Humanidade.
                Ao longo da escritura destas notas, reli O Mandarim. Encanto de narrativa fantástica, que denuncia, certamente, o colonialismo.  Depois de tocar a campainha de se apossar dos bens de outros povos, nada mais resta para reparar a destruição que o gesto acarreta. Portanto, Eça de Queiroz não é só artesão da língua portuguesa (para ele, uma viagem não é simplesmente embarcar, uma partida, mas “pus a proa ao Oriente”), sobretudo é o cronista visionário do fim de uma época, de uma virada de século.