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SAUDAÇÕES AO ROMANCE DE WIL PRADO

Wil Prado é uma de minhas amizades mais firmes desde que cheguei a Brasília. Desde nossos passos iniciais na literatura, foram vívidos debates e percursos juntos pela cidade. Por muros vários que atravessam a nossa vida, Wil Prado demorou a publicar seu primeiro livro. E é com alegria que vejo que figuras importantes da literatura brasileira, de cara, se manifestarem favoravelmente ao seu romance SOB AS SOMBRAS da Agonia, editado pela Chiado, de Portugal, do qual foi leitor desde as primeiras versões até o momento de escrever a apresentação. Acredito que são poucos que merecem uma manifestação eufórica de Raduan Nassar.  E, ainda, de João Almino, que acaba de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.
(...) SOB AS SOMBRAS DA AGONIA me tocou sobretudo pela linguagem, por palavras novas, metáforas bem sacadas, e os empurrões articulando o entrecho. Além disso, o romance arrola no geral gente do povo, ao lado de uns poucos salafras da elite, com caracterizações convincentes, inclusi…
Postagens recentes
Mas ser amado é poder ser útil ao amor.
Por exemplo, pregar pregos onde o amor não quer se fixar,
coçar onde os piolhos estragaram o amor.
Por exemplo, ser útil com o calor onde o amor se esfria,
ser belo onde o amor vai com o fluxo das rugas.

Mas ser amado sem comer o gosto de pedra.
O gosto de amora e jambo também não é o gosto
e a utilidade que o fruto leva para o beijo.
Ser útil ao amor, por exemplo, com a carnal das mãos
sobre o trabalho de aliviar a velhice do amado.

Mas ser amado não é só à espera do verniz
da bengala. Tem de esvaziar antes os ossos,
soltar dos portos tantas embarcações de outros
que não ficarão para assistir o que o beijo
gasta de jambo e carne, antes da partida.

O que me enriquece

Quando terminamos um ciclo, seja de tempo ou de percurso entre um ponto e outro da territorialidade de existirmos, cumpre-nos avaliar o que fortalece ou empobrece a nossa existência. O que me empobrece está na minha impossibilidade de contribuir para que em todas as casas exista a ereção do espaço para que as pessoas construam a consciência do que são, através das marcas da cultura. Nunca me esqueço de uma casa de um bairro que esteve um dia em meu percurso. Atravessei-a, pois o único percurso era passar por dentro daquela casa. A família tinha apenas um banco em que sentar, e possivelmente só lhes resgatassem ficar silenciosos ao lado um do outro. Voltei neste ano a encontrar pessoas assim sentadas, sem poder contar com nenhuma compressão, de outros, de si, sem conseguir pensar por si o que está a acontecendo com elas. Mas sabem que estão amarradas a uma impossibilidade amarga. O maior desastre é não conseguir compreender a realidade que foi construída em volta de si. Deprimo-me quan…

Filme de Creadle sobre Miles Davis

Assisti só agora em 02.11.2016 a cinebiografia "Miles Ahead", que ainda não estreiou no Brasil. Espero que o filme não denigra a trajetória de Miles Davis, pois Creadle preferiu fazer um filme policialesco e não jazzístico. O que aconteceu com Miles Davis, tenho certeza, não teve a a corrida policialesca suspensiva que o filme procura caracterizar. Eu gostaria de ver o Miles Davis criativo, gênio, e não a construção de um homem derrotado. Acho que a família e o cineasta estavam focando apenas a grana que poderiam ganhar. Poderiam honrar a trajetória de um gênio. Quando li sua autobiografia não enxerguei este homem estúpido e derrotado. Um homem assim não teria deixado o legado que está aí disponível a todos. Não teria contribuído para mudança dos rumos da música e para a ascensão de tantos nomes, muitos deles ainda na ativa. Em momento algum o filme não mostra se é Wayne Shorter ou Herbie Hancock que entra na história. Se Creadle deseja dar uma improvisação ao filme ela não …

O gênio dos mestres

Estou fazendo postagens demais, mas sempre está ocorrendo alguma coisa. É a chuva, é o pássaro, é o besouro atravessando a janela em busca de luz. Mas fui ao cinema assistir "O gênio dos mestres", cinebiografia de Max Perkins, um dos maiores editores norte-americanos, responsável pela edição de obras de Hemingway e Fitzgerald. O filme trata da relação dele com Thomas  Wolfe, romancista ainda não traduzido por aqui, já que traduziram apenas contos dele. Tenho dois romances em espanhol. Vou ver se leio um nas férias de novembro. (Por falar nisso, terminei "A cidade de Deus", de Santo Agostinho. Deixou a minha cabeça em barafunda.) Em resumo, o filme merece ser visto. Drama comovente, com trilha jazzística limpa e justa, não muito da época, mas belíssima, ótimas referências à poesia e ao processo de organização de um romance. Agrada muito a quem é ou deseja ser escritor, e comove o expectador amante da arte.

Júlio César Polidoro

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A Salomão Sousa

Assina a ruga
essa rude instalação:
no corpo alquebrado
o rosto precário
e a rua
repleta de buracos.

E avenidas cortam,
novas, ao rincão
da pele, antes plana,
uma sucessão de quebra-molas.

Mil atalhos surgem
desde os cílios
e ladeiras íngremes
entornam
um rio de lágrimas
dos olhos.

Eis o tempo
e urge no meu rosto
a vital parcela do imposto
que esse mesmo tempo
agora cobra.